sexta-feira, 3 de julho de 2009

VIDA NA MORTE

“Lázaro, o nosso amigo, dorme,
mas vou despertá-lo do sono.”

João 11.11 (leia 11.1-45)

A morte é uma das grandes preocupações do ser humano – o maior desafio e mais profundo mistério. A natureza mostra que é inevitável e irreversível, sempre seguida pelo caos e decomposição. Resistimos esta fatalidade da nossa existência. Não podendo vencê-la fisicamente, lançamos mão da fé. Pela fé os cristãos afirmam a ressurreição.

A história de Lázaro não traz uma resposta definitiva diante do mistério e da certeza da morte. Sua ressurreição era temporária, apenas adiando a morte definitiva. As curas e milagres de Jesus eram apenas o adiamento da morte física, não a libertação dela. Sem dúvida, Lázaro morreu outra vez.

Não é por isso que este episódio descrito no Evangelho de João não tem valor. O valor está na afirmação de que a morte não elimina a vida. Mesmo com a morte, a vida continua e se manifesta. As dimensões da vida e da morte são muito além da nossa compreensão. A vida e a morte são regidas por um Poder maior. O mesmo poder que criou a vida, também, criou a morte. Ambos fazem parte da ordem da existência.

Jesus simboliza esta realidade criadora e sustentadora que dá base para a vida e a morte. A morte não deve ser temida. É apenas a face obscura da vida. A vitória sobre a morte não consiste na sua eliminação. É a compreensão de que ela, também, está sujeita a um poder maior. Jesus é apresentado como o Senhor de tudo, inclusive da morte.

Sem esta visão encaramos a morte como um mal trágico e a vida como uma luta contra a morte. A morte é tida como inimiga a ser afastada enquanto temos forças para combatê-la.

Jesus injetou um outro fator na polaridade vida/morte, o amor. O amor está acima da vida e da morte. Por amor, Ele se entregou à morte, demonstrando que a morte pode fazer parte da vida plena. O nosso medo da morte nos faz recuar numa vida egoísta de auto defesa e auto promoção. Valorizamos a nossa vida acima da dos outros. O medo afasta o amor completo, contrário a 1 João 4.18 que diz “o amor completo afasta o medo”. Nosso medo da morte tira a nossa capacidade de amar. O amor pode ser “perigoso” e cortejar a morte. Amar de verdade exige coragem porque a morte está embutida.

Vivemos numa cultura que nega a morte. Esta negação da morte leva à busca frênica de preservar a vida própria, deixando de lado o amor. Abre as portas para a injustiça, corrupção e violência. Cada um defende o seu pedaço, ignorando o bem estar coletivo. Até a religião se torna a busca de salvação pessoal e prosperidade individual. A ironia é que esta negação promove o caos e a degeneração moral que promove a morte que pretende evitar. A busca egoísta da vida promove a morte prematura e pouca redentora.

A história da ressurreição de Jesus é uma afirmação de que a morte não elimina a vida e que o amor engloba ambas. A morte faz parte da vida e a vida inclui a morte.

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