domingo, 19 de março de 2017

O PODER E AS CRIANÇAS

Se alguém quer ser o primeiro,
deve ficar em último lugar e servir a todos.
Aí segurou uma criança e a pôs no meio deles.
E, abraçando-a, disse aos discípulos:
Aquele que, por ser meu seguidor,
receber em meu nome uma criança como esta
estará também me recebendo.
Marcos 9.35b-37a (leia 9.33-37) – NTLH

Os discípulos eram tão problemáticos para Jesus quanto os seus inimigos. Seguir Jesus não era garantia de perfeição ou sabedoria. Os seguidores atrapalhavam e atropelavam, e, na hora do maior perigo, abandonaram-no. Com a crucificação de Jesus, muitos voltaram ao seu caminho antigo. Eram instáveis e egoístas. Cada um procurava domínio sobre os outros, querendo chegar ao topo e ficar no primeiro lugar.

Com o Pentecostes e a formação das igrejas, a situação não mudou. Os velhos problemas: egoísmo, fingimento e atritos entre irmãos reapareceram. Os problemas internos eram tão ameaçadores quanto as perseguições externas. As Epístolas foram escritas em torno de conflitos dentro das comunidades cristãs, escritas para apagar os incêndios da própria casa da fé.

Muitas vezes, no decorrer da história do cristianismo, a teologia da cruz se transformava na prática da violência, o ideal da humildade em arrogância, o propósito de serviço em manipulação. As igrejas, como instituições, têm muita dificuldade em ter a prática coerente com o discurso. O indivíduo é sacrificado para promover a estrutura. As igrejas confundem coletividade com instituição. Ao se promoverem, acham que estão beneficiando a humanidade. As instituições eclesiásticas, como as seculares, muitas vezes se tornam “arenas de competição” em que uns sobem a custa dos outros!...

Jesus enfrentou uma briga pelo poder entre seus discípulos. Ainda não havia uma estrutura formal, mas já estavam lutando pela “pole position da largada”.

Jesus chamou atenção às crianças. Elas representavam o “sem poder”, sem autoridade, zero à esquerda, na estrutura social. Os maiores no Reino são os “sem poder”. O poder de Jesus não era institucional. Nunca ocupou cargo que lhe dava autoridade sobre os outros. O seu poder era moral.

Receber crianças é se identificar com elas. Quem ama crianças não tem ambições de grandeza e de poder. O amor de mãe é amor que se doa, nutre e se sacrifica para o bem do amado.

Nossa “civilização” ignora as crianças. Elas são, ou inconvenientes ou vistas como objetos de exploração. Na África, são raptadas e treinadas para pegar em armas e guerrear a favor dos poderosos. Em nossas cidades os traficantes usam-nas para enriquecimento. Alguns pais as colocam nas esquinas para pedir esmolas. São usadas como mão de obra barata para a produção de artigos de baixo custo na concorrência econômica. São as maiores vítimas de subnutrição e de violência doméstica e social.

É agradável receber os poderosos na política e na economia. É vantajoso identificar-se com aqueles que possuem posições de destaque e são bem sucedidos. Queremos ser reconhecidos pelo alto nível das nossas amizades.

Receber criança é identificar-se com aqueles que não são valorizados pela sociedade, podendo ser vistos como inúteis e inconvenientes, idosos ou outras categorias marginalizadas pelo preconceito e descaso. São aqueles que necessitam da solidariedade para sobreviver! Jesus era sem teto, sem terra, sem emprego e sem dinheiro. Vivia à margem da estrutura social. Quem recebe um destes, recebe Jesus.

MARCOS 9.33-37 – NOVA TRADUҪÃO NA LINGUAGEM DE HOJE 2000 (NTLH)

Jesus e os discípulos chegaram à cidade de Cafarnaum. Quando já estavam em casa, Jesus perguntou aos doze discípulos:

O que é que vocês estavam discutindo no caminho?

Mas eles ficaram calados porque no caminho tinham discutido sobre qual deles era o mais importante.

Jesus sentou-se, chamou os doze e lhes disse:

Se alguém quer ser o primeiro, deve ficar em último lugar e servir a todos.

Aí segurou uma criança e a pôs no meio deles. E, abraçando-a, disse aos discípulos:

Aquele que, por ser meu seguidor, receber uma criança como esta estará também me recebendo. E quem me receber não recebe somente a mim, mas também aquele que me enviou.



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